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O farol piscava verde. Atravessou. A vista cheia de verdes
pontilhados. O bonequinho vivo, mais vivo que ele. Piscava, frenético. O verde
pestanejava gentil e comandante: passe. Não exigia, mas advertia instilando
culpa. Passe. O vulto de sapatos pretos atravessou a rua.
Lembrou-se que Carla havia sugerido pintar a parede de
verde.
E Saulo, o arquiteto, disse que verde pode ser bom, mas é
bom ter cuidado na escolha. Pra escolher um verde elegante.
Marcel deixou escapulir a palavra roxo.
Mas roxo? De jeito nenhum.
Estavam certos, Marcel nem entendia o roxo.
No branco-pálido do quarto, foi recebido pelo caramelo-fosco
do cão
Os livros espalhados pelo metal esmaltado da mesa
O edredom lilás desgrenhado de sua avó
A madeirinha marrom das estantes e da sapateira, silenciosa
como árvores mortas.
No teto, luzinhas chinesas circunscritas de papel em forma
de cilindro – também branco. E o quarto continuava pálido, mesmo quando aceso.
Ali era o estilo não-estar. Ignorado pela moda. Nunca sequer
esteve em alta ou em baixa.
No sertão imenso, naquela aridez ora fria ora quente do
avesso de Marcel, nada excedia os limites além da própria imensidão de
pedrinhas. À qual ele não sabia impor freios, encher de caju, vinho, morango.
O quarto, a vida, a rua em que se põe a mão eram um detalhe
naquelas brutas lonjuras onde a voz viaja sozinha e limpa por séculos.
E naquele quarto, o violão escondido debaixo de um baú
inóspito, o violão esquecido como coisa qualquer. No violão ele um dia
entendera as cores.
Na parede não havia sequer manchinha de caneta, marcas de
murro ou até risco de um móvel cuja quina arranhara sem querer. O prato de um
lado só. A cartola furada que não tinha coelho nem nada, só o outro lado
mostrando o lado vazio.
O cãomarelo correu em busca da bolinha cor de rosa, mas,
entediado, logo adormeceu em sua caminha rosa encardido, rosa murcha.
Segunda-feira vinha um sofá “kappa” de dois lugares. Reto
como um tijolo e pesado como concreto.
Ele teve dúvidas se deveria escolher a cor azul marinho bic
ou roxo ipê. Ou cinza-torto? Escolheu preto porque preto não suja.
Essa coisa de cor, esses objetos que não têm linhas retas,
mas constelares, que querem dizer? Quando falam entre si?
Ele não entendia o amarelo dos girassóis de sua avó. Que
eram um caldeirão de amarelo, eram pólen borrando os cílios, mel besuntando o
rosto. Um mar flavescente evaporando abelhas e sol sob o céu adornado de azul império-celeste.
Ou o carmim do batom de Cecília.
Não sabia se achava bonito, se achava feio. Aquela moça,
mocinha, naquela vermelhidão toda, acesa. Chama.
As cores não tem cerca. Por isso ele preferia o branco.
Branco não relampeja. Branco não tem veia. Branco não sangra. Não passa
vergonha. Não exagera. Apenas suja com facilidade, não tem como se esconder.
Ele era, ao menos, um homem quase equilátero, quase sincero.
Atravessou a rua. E olhando para o chão, sempre distraído,
naquele cinza-
-cimento de cinzel, a rua petrolínea sendo atravessada por carros
pretos, prata e brancos.
O ouvido direito dele ouvindo, o esquerdo abafando.
E os passos tortos, tortinhos, eram a única denúncia – de
que havia um violão enfiado em um baú verdimundo.