quarta-feira, 23 de julho de 2014

"Searching for Shoes", por Courtney Campbell



"she wanted to try on her mother's shoes so
she opened the closet.
in the closet she found hard pursed lips and
a voice of steel.
a forehead crease and polite gesture. she found
a gravel pit way back in the back.
a pile of rocks. a reservoir. a conveyer belt. a
steady drum-dee-dee-dum of logic.
behind the logic a pair of boots. behind the
boots a pill to help her sleep.
she wanted to try on her mother's shoes and
found a birth certificate bent at the corners.
a mimeograph. a name and then another. found
a memory on a hanger.
found a prom ticket that smelled of bobby pins. she
found a twitch under a left eye and an acorn-
shaped expression. she wanted to try on her
mother's shoes. she stepped into the closet.
she found a closet in the closet. in the closet
she found a trunk.
she found a box inside the trunk. inside the box
she found love letters. in the letters
little words of cedar ink and salt water. in the
words little curves shy and yellow.
in the curves she found a shoreline. in the
shoreline she found a sand castle.
on the castle there was a door. through the door,
to the right was a hall.
the first door on the left was the bathroom. in the
second door an empty bedroom.
in the bedroom a closet. in the closet, she found
her mother searching for her mother's shoes"

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Esse punhado de ossos __ Ivan Junqueira


"Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram."

Talvez o vento saiba __ Ivan Junqueira

"Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços."

terça-feira, 24 de junho de 2014

Manuel Bandeira, «Profundamente»

"Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje eu não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Labirintite - Henrique Wagner

Labirintite

Amo apenas meu irmão,
mas não qualquer irmão:
amo o mais amável, o mais frágil, o caçula.
Amo ainda a mulher por quem, atualmente, me sinto apaixonado.
Amo essa mulher, e mais nenhuma no momento.
 Amo meu pai, porque ele me foi amável sempre.
E amo meu filho,
 porque ele ainda não cresceu,
 porque ele ainda não tem a labirintite que eu tenho.
 Quanto a Cristo, não, não o amo.
Amo apenas meu irmão.
Não o próximo, mas o caçula.

Henrique Wagner

terça-feira, 3 de junho de 2014

POEMINHA PREGUIÇOSO __ Marcelino Freire

"só você
não me dá
preguiça.
só você
não me
enguiça.
só você
me faz abrir
o olho.
feito um olho
de cachorro
de olho
nos passos
do dono.
só você
me levanta
deste marasmo
me salva
deste abandono.
só você
e eu
teremos
uma razão
para viver.
para sempre
um para
o outro
escravos
do mesmo
cansaço.
até
morrer."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dia Dez - Matilde Campilho